quinta-feira, 11 de julho de 2013

Ao meu amor

Meu amor:
A ti, deixo-te tudo. E com tudo, eu quero dizer tudo de mim.
Deixo-te o meu coração, fragmentado em mil e um pedaços de sonhos que teimaram em não se deixar cumprir; partido em demasiados desgostos, mais do aqueles que posso contar; triturado e espremido por ti até ao último bater; esta bomba impulsionadora do sangue que me corria nos vasos e espalhava pelo corpo o teu veneno.
Deixo-te os meus pulmões, como duas esponjas macias, embebidas na doença maligna que me ofereceste, sem dó nem piedade, como se de um presente se tratasse e um favor me fizesses. Em relação a estes, aviso-te, a coloração fúnebre deve-se ao ar que não recebia em tempos últimos, e o aspeto moído é fruto da minha mente sobreanalisadoramente corrosiva.
Deixo-te a minha garganta, cravada de nós e laçadas, de todas as vezes em que o choro caiu por dentro e deixo-te os meus olhos, bolas ressequidas de formato indefinido, como sacos onde guardo as angústias, muito juntas umas das outras, esperançosa de que não transbordem.
Nada disto agora me pertence, porque nada quero destas carnes variadas, que não me deixam afastar de ti, pois em cada uma delas estás impresso a tinta permanente. Dei-tas a ti por saber que delas te serviste. E dei-tas a ti por saber que o frio da tua alma as conservará por tempos indeterminados. Ou talvez as degrade, até que já não constituam matéria.
Com sorte, um dia, átomos de mim voltarão a nascer numa estrela, e dessa vez há de ser uma muito quente, que me dê olhos brilhantes sem ser de lágrimas.

Mas por enquanto, parto daqui, para longe desse teu olhar de querubim, desse teu coração de mármore, dessas tuas mãos de tesoura. E espero não mais voltar a encontrar-te, meu amor, para bem de mim própria, que depois de esventrada, sou apenas a concha da mulher que sempre quis ser e na qual nunca me tornei.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Noite

O Sol caiu faz já tempo.
É mera recordação agora.
E chega a hora
Em que a cidade se despede
E as crianças vão ninhar.
É agora que se abre a minha janela
Sei o que me espera
E sei não ser bom:
Amarga insónia!

Vejo o negro lá fora,
Cortado pelas ínfimas luzes das ruas.
Luzes das ruas das pessoas do mundo.
Ruas que não me pertencem
Por ao mundo não pertencer;
Luzes que só a mim pertencem,
De horas que passam
A ser só minhas de ver.

Tivesse eu a visão desse negro
Quando a meus olhos chega
A escura luminosidade da noite,
Em vez de neles passarem,
Calmamente e apressadas,
As memórias do derradeiro.

É à noite que me surgem os pensamentos,
Aquilo que vivi, vivo
E até o que nunca viverei.
É à noite que me visitam
Os meus monstros,
Os meus fantasmas,
As minhas dores,
As dores de outrem.

É também à noite que me vêm os versos,
Escassos esses,
Por escassa eloquência.
Mas não me permitem escrevê-los!
Queria eu luz e vigor
Para usar o lápis sem desfalecer.
Queria eu a noite em que vou adormecer,
Ainda que fosse para não mais acordar.

Assisto ao trajeto da lua
Vestida na sua elegantia
De quem da noite é filha.
Ao início contemplo a sua ligeireza.
Quando vai alta,
Desejo que se apresse.
Afinal, escuridão a mais torna-se fel
E os tormentos,
Esses, fazem-se demasiados
E vivo com medos.

A cabeça torna-se pesada,
A alma, molestada
E o corpo já não é corpo.

Dia, porque tanto teimas em chegar?
Porque me negas a luz do Sol?
Aquela única luz
Capaz de me ressuscitar?

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Dias

Há dias em que só me quero encontrar.
Outras há em que só me quero perder!
Noutros dias, quero ambos
E, noutros, simplesmente não sinto querer.
Inconstância do ser!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Não

Não te sei.
Não te conheço.
Não te encho.
Não te chego.
Não te canto.
Não te escrevo.
Não te falo.
Não te oiço.
Não te sinto.
Não te minto.
Não te chamo.
Não te odeio.
Não te amo.
E penso em ti,
Como se te soubesse,
Conhecesse,
Enchesse e chegasse,
Cantasse e escrevesse,
Falasse e te ouvisse,
Te sentisse e te mentisse,
Te chamasse.
Como se te odiasse e como se te amasse.
Mas não!
Não te odeio, não te amo.
Simplesmente sou,
Sem saber o que és para mim,
Com a certeza soberana
De nada não ser resposta.

terça-feira, 21 de maio de 2013


Penso que de deixar de gostar de alguém é gradual e pode demorar muito tempo.
Por outro lado, penso em amar como um conceito absoluto: ou se ama ou não se ama. Não se pode amar menos ou amar mais, pode-se sim amar de outra maneira, mas ainda dessa forma, ou se ama ou não se ama. E com isto quero dizer que deixar de amar não é, ao contrário do anterior, um processo faseado, mas sim algo intemporal por se prolongar apenas por uma fração de segundo. Num segundo ama-se, no segundo seguinte não se ama. O que não implica que não se goste!
E assim, desde o momento em que se quer, involuntariamente e nunca por decisão própria, deixar de amar alguém, até ao momento em que efetivamente se deixa de o amar, pode passar-se um minuto ou pode passar-se uma vida. Não porque o deixar de amar, por si próprio seja demorado, não é, mas sim porque não temos controlo sobre o instante em que essa passagem irá decorrer.
Por isso, não adianta querer deixar de amar, de nada serve tentar acelerar esse processo, que não se rende à dimensão temporal, e muito menos tentar forçá-lo, narrando emoções quiméricas, à espera de que elas se personifiquem em nós. 
A única solução, inútil e imutável e tão inconfortante, é ter paciência ou, para quem consegue, ter esperança, acreditando que irá acontecer antes que o último sopro corra fora dos nossos pulmões.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Doença

Já não te amo.
Não pretendo com isto dizer que não gosto de ti, apenas que não te amo. E quanto menos te amo mais sei que te amei.
Podes pensá-lo como efémero no tempo. Eu penso-o como um caso agudo de uma enfermidade que não mata, mas se vai espalhando em torno do coração, causando dor e caos.  E neste período de convalescênça, que se encontra agora em seu término, fiz a aprendizagem benevolente e reconfortante de que, por vezes, é necessário a priorização da nossa sobrevivência mais instintiva, dos nossos caracteres mais animalescos, em detrimento do nosso pensamento altruísta, que denota a humanidade de cada um, que ignora a desumanidade de cada outro para connosco.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Sei que ninguém me entende, porque eu própria não consigo entender-me. E ninguém me entende porque, tal como só conseguimos ver parte da luz e só ouvimos parte dos sons, há dois tipos de coisas impossíveis de entender: aquelas que não fazem sentido nenhum e aquelas que fazem sentido demais. As primeiras não têm entendimento, as segundas estão além do nosso. O espetro de coisas que nos é passível de compreender é muito restrito, como tudo no ser humano é restrito, à exceção da capacidade de amar. 
E é assim que se chega à relação entre o amar e o entender: podemos amar tudo o que entendemos, mas não podemos entender tudo o que amamos.