Meu amor:
A ti, deixo-te tudo. E com tudo, eu quero dizer tudo de mim.
Deixo-te o meu coração, fragmentado em mil e um pedaços de sonhos que
teimaram em não se deixar cumprir; partido em demasiados desgostos, mais do aqueles que
posso contar; triturado e espremido por ti até ao último bater; esta bomba
impulsionadora do sangue que me corria nos vasos e espalhava pelo corpo o teu
veneno.
Deixo-te os meus pulmões, como duas esponjas macias, embebidas na doença
maligna que me ofereceste, sem dó nem piedade, como se de um presente se
tratasse e um favor me fizesses. Em relação a estes, aviso-te, a coloração
fúnebre deve-se ao ar que não recebia em tempos últimos, e o aspeto moído é
fruto da minha mente sobreanalisadoramente corrosiva.
Deixo-te a minha garganta, cravada de nós e laçadas, de todas as vezes em
que o choro caiu por dentro e deixo-te os meus olhos, bolas ressequidas de
formato indefinido, como sacos onde guardo as angústias, muito juntas umas das
outras, esperançosa de que não transbordem.
Nada disto agora me pertence, porque nada quero destas carnes variadas, que
não me deixam afastar de ti, pois em cada uma delas estás impresso a tinta
permanente. Dei-tas a ti por saber que delas te serviste. E dei-tas a ti
por saber que o frio da tua alma as conservará por tempos indeterminados. Ou
talvez as degrade, até que já não constituam matéria.
Com sorte, um dia, átomos de mim voltarão a nascer numa estrela, e dessa
vez há de ser uma muito quente, que me dê olhos brilhantes sem ser de
lágrimas.
Mas por enquanto, parto daqui, para longe desse teu olhar de querubim,
desse teu coração de mármore, dessas tuas mãos de tesoura. E espero não mais
voltar a encontrar-te, meu amor, para bem de mim própria, que depois de
esventrada, sou apenas a concha da mulher que sempre quis ser e na qual nunca
me tornei.
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