O Sol caiu faz já tempo.
É mera recordação agora.
E chega a hora
Em que a cidade se despede
E as crianças vão ninhar.
É agora que se abre a minha janela
Sei o que me espera
E sei não ser bom:
Amarga insónia!
Vejo o negro lá fora,
Cortado pelas ínfimas luzes das ruas.
Luzes das ruas das pessoas do mundo.
Ruas que não me pertencem
Por ao mundo não pertencer;
Luzes que só a mim pertencem,
De horas que passam
A ser só minhas de ver.
Tivesse eu a visão desse negro
Quando a meus olhos chega
A escura luminosidade da noite,
Em vez de neles passarem,
Calmamente e apressadas,
As memórias do derradeiro.
É à noite que me surgem os pensamentos,
Aquilo que vivi, vivo
E até o que nunca viverei.
É à noite que me visitam
Os meus monstros,
Os meus fantasmas,
As minhas dores,
As dores de outrem.
É também à noite que me vêm os versos,
Escassos esses,
Por escassa eloquência.
Mas não me permitem escrevê-los!
Queria eu luz e vigor
Para usar o lápis sem desfalecer.
Queria eu a noite em que vou adormecer,
Ainda que fosse para não mais acordar.
Assisto ao trajeto da lua
Vestida na sua elegantia
De quem da noite é filha.
Ao início contemplo a sua ligeireza.
Quando vai alta,
Desejo que se apresse.
Afinal, escuridão a mais torna-se fel
E os tormentos,
Esses, fazem-se demasiados
E vivo com medos.
A cabeça torna-se pesada,
A alma, molestada
E o corpo já não é corpo.
Dia, porque tanto teimas em chegar?
Porque me negas a luz do Sol?
Aquela única luz
Capaz de me ressuscitar?